O protagonismo leigo

smp

Por Claudio Cardoso*

O povo de Deus é constituído, em sua maioria, por leigos chamados a testemunhar na sociedade o Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Em uma sociedade que carece de valores morais, éticos e cristãos, mais do que nunca, somos chamados a exercer o papel de protagonistas no anúncio do Evangelho!

Com o Concilio Vaticano II, as portas se abriram como se soprasse um vento novo, dando um impulso renovado à Igreja e criando um ambiente de esperança. Essa novidade gerou grandes expectativas nos corações, mas também gerou dúvidas no sentindo de saber se essa nova proposta daria mesmo certo.

Até os dias atuais, as palavras proferidas por São João XXIII na abertura do Concilio Vaticano II ressoam em nós: “O Concilio agora iniciado surge para a Igreja como um amanhecer, precursor da luz mais esplêndida. Agora é somente uma alvorada. E já ao primeiro anúncio do nascer do dia, quanta suavidade inunda nosso coração.”

Estas palavras ecoam em todos os corações da Igreja. Sabemos que um tempo novo já começou! Quantas riquezas surgiram na Igreja nestes últimos anos, quantos carismas apareceram; as pastorais, os movimentos , as comunidades de vida e aliança e tantos outros serviços foram surgindo.

Quanta riqueza, que descoberta maravilhosa da Igreja! E toda essa maravilha foi sendo desenvolvida tendo os leigos como protagonistas desta Nova Evangelização. São leigos aguerridos, de coração aberto a acolher a Palavra de Deus e aos ensinamentos da Santa Igreja! Estas pessoas têm dado verdadeiros testemunhos de vida e conversão, sempre acompanhados de perto pelos olhares atentos de seus pastores que, com zelo de pai, cuidam de suas ovelhas.

É claro que no decorrer da descoberta desta novidade leiga no serviço da evangelização, houve tropeços, arranhões e dificuldades, mas tudo isto foi apenas o remexer da terra se preparando para o plantio que vinha chegando.

Somos bispos, padres, religiosos e leigos de mãos dadas, orientados pela Mãe Igreja, e impulsionados pelo poder do Espírito santo! Estamos levando aos mais longínquos lugares a cultura de Pentecostes, o amor ao próximo, a partilha do pão, a prática dos diversos carismas no serviço Igreja. “Servindo com gratuidade de coração, sempre deixando transparecer Jesus” e como o Evangelista João 3,30 destaca: “Importa que Ele cresça e que eu diminua”. Reconhecendo quem é o Senhor na Igreja!

Os leigos são chamados a serem cooperadores e co-responsáveis na missão de anunciar o Evangelho. Neste sentido, o Catecismo da Igreja Católica 905 vem dizer que ‘Os leigos exercem sua missão profética também na evangelização, isto é, o anúncio de Cristo feito pelo testemunho da vida e da palavra’.

Recordo-me de uma empresa onde trabalhei por alguns anos. Todos os dias na hora do almoço aconteciam calorosas discussões sobre diversos assuntos e entre os mais comentados estava sempre a Igreja e o que o padre havia dito em sua homilia de domingo.

Era ali mesmo, na roda de trabalhadores, cada um com sua marmita na mão, sentados no chão e com vozes elevadas, que aqueles leigos falavam o que pensavam sobre os diversos assuntos. A falta de catequese era notória. Ali se refletia a pobreza de formação já que cada um falava o que entendia sobre o Evangelho.

Alguns daqueles trabalhadores retiravam da Palavra de Deus as verdades nelas expressas, outros acrescentavam o que nunca se tinha visto na Bíblia. Eu chamava aquilo de uma verdadeira salada de confusão.

Entretanto, aquele momento era um campo extraordinário de Evangelização! Era o presbitério do leigo, era a hora de seu testemunho de vida, do seu profetismo. Era ali o lugar que a Missa tinha seu desdobramento, onde todos falavam e todos eram ouvidos. As concordâncias e discordâncias ganhavam formas e vozes. Mas no final o que prevalecia era a fé de cada um. Então todos voltavam para os seus serviços aguardando o tema do dia seguinte.

Ambientes assim se encontram em todos os lugares, seja na família, no trabalho, no ônibus, na praça, na fila do banco, nas escolas etc. Em todos estes espaços se encontra o crente e o descrente, a luz e as trevas. O que vai acontecer depois de cada encontro vai depender do quanto cada um deu de si mesmo, o quanto foi verdadeiro em seu testemunho.

Diante disso, concluo que as palavras convencem, mas o testemunho arrasta. Desconheço o autor dessa frase muito verdadeira. O que me chamava a atenção naquelas discussões eram o desejo deles em ver o Evangelho Vivo, expresso nas atitudes de cada um de nós. Não basta dizer ‘sou honesto’, é preciso agir como um homem honesto. Nos olhares desconfiados se escondia o desejo de ver Deus, expresso em nossos atos.

É neste território que vamos entrar com as Santas Missões Populares! Teremos pela frente um terreno pedregoso, cheio de espinhos, mas também de terra fértil!

Sobre a evangelização, no Evangelii Nuntiandi, o Papa Paulo VI enfatizou o papel do Espírito Santo: “ É importante salientar que o Espírito Santo é o agente principal da evangelização: é Ele quem impulsiona cada individuo para proclamar o evangelho, e é Ele que, nas profundezas da consciência, faz com que a palavra de salvação seja aceita e entendida”.

Sem o auxilio do Espírito Santo, nossa pregação é vazia, sem vida, não é convincente. Leigos bem formados pode ser um braço forte na construção de uma nova sociedade!

As Santas Missões Populares parecem remontar nos dias de hoje o Evangelho de Lucas 10, 1: “Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir.”

O Pai escolhe, o Filho chama e o Espírito Santo conduz. Assim, de casa em casa, novamente a poeira se levanta sob os pés dos mensageiros da Boa Nova. E o que vamos encontrar? Como será a recepção nas casas? São indagações e receios que temos, porém, um coração missionário não fica parado vendo a vida passar, ele vai!

Atos 9,10-11 narra a história de um discípulo chamado Ananias: “Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.”

Ananias era um leigo que recebeu do Senhor a missão e ir até a casa onde estava Saulo de Tarso. Mesmo com medo do encontro com Saulo ele foi e deste encontro surgiu o grande apóstolo Paulo.

Sejamos como Ananias nestas Santas Missões Populares! Precisamos ter a coragem e a parresia de ir às casas, às periferias e a tantos outros lugares, onde as pessoas necessitam de uma palavra, um abraço ou apenas um ouvido que os escutem, permitindo cair dos olhos as escamas da indiferença, da descrença e tantos outros males que afligem a vida humana.

Na Igreja há lugar para todos! “A grande variedade de carismas e atividades apostólicas que representais enriquece, de forma maravilhosa, a vida da Igreja e para além dela”, disse Papa Francisco aos leigos em sua recente visita à Coréia do Sul. Coloquemos nossos dons a serviço da Igreja! Ela nos chama e nos acolhe!

*Claudio é coordenador da Renovação Carismática Católica na Diocese de Guaxupé

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